quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Crônica: "Um passinho no corredor, por favor"


No momento em que se consolida a venda da Viação Garcia para a Luft Logística de São Paulo, é inevitável lembrar-se de momentos de minha infância, passada até os sete anos no bairro da Cervejaria, em Londrina. Naquela época, o bairro abrigava a fábrica da Cervejaria Caracu, que tinha sido criada como Cervejaria e Maltaria Londrina e que, a exemplo do que acontece hoje, também foi vendida para uma empresa também de São Paulo, a Cervejaria Skol.
O bairro era muito longe do centro de Londrina e para ir "à cidade", como se dizia, usávamos os ônibus amarelos e vermelhos da VUL - Viação Urbana Londrinense, que passavam de hora em hora e sempre bem lotados. Eram ônibus com a corroceria arredondada, menores e bem diferente dos que vemos hoje circulando por toda a região. O 'ponto final' era no bosque e dali íamos ao comércio da época (me lembro particularmente do letreiro em neon das Casas Fuganti, na fachada do prédio onde hoje é o HSBC), e depois, de mãos dadas com meu pai e minha mãe, até à Galeria Marquezine, no térreo do Edifício Tokio, na Rua Sergipe. Meu tio e padrinho Paulo Marquezine era dono da banca que vendia também discos e livros. Invariavelmente ele me dava de presente um fascículo semanal da coleção Os Bichos, da editora Abril, que tenho guardados até hoje. Foi também tio Paulo que me presenteou minha primeira cachorra de estimação, a Preta, mas isto já é outra história...
Subíamos então até o oitavo ou nono andar do prédio, onde morava toda a família do tio Paulo, que na verdade era casado com Catarina, irmã mais velha de meu pai e que o criou desde o primeiro dia de vida, e que, por isso, ele a chamava de mãe. Tia Catarina oferecia doces, biscoitos e insistia que almoçássemos ou jantássemos, conforme a ocasião. A mesa da cozinha era supermoderna para a época: de fórmica vermelha, como as cadeiras e o apartamento reluzia limpeza e organização, administrado com esmero por minha tia, sempre muito severa.
Visitados os tios (que para mim, fizeram o papel de avós paternos), íamos até a rodoviária de Londrina, que funcionava na Rua Sergipe, onde hoje está o Museu de Arte da cidade. Sempre gostei daquele prédio, que acredito ser um dos mais bonitos do país. Descia a rampa sempre agarrado com os pais, para não se perder em meio à multidão que lotava invariavelmente a rodoviária, e nos posicionávamos em uma das plataformas para esperar o ônibus da Viação Garcia que nos levaria à Cambé, na casa de meus avós maternos. Os velhos ônibus Scania da Garcia encostavam e uma multidão saía pela única porta dianteira (eram ônibus de viagem rodoviária e não coletivos urbanos, como acontece hoje). Outra leva de gente entrava e se acomodava nos bancos altos de corvin esverdeado. Eu, como toda criança, gostava de estar ao lado da janela, que tinha cortinas verdes ou azuis. As pessoas se acotovelavam no corredor estreito, e o coletivo ia parando, de ponto em ponto apanhando mais passageiros. O cobrador, sempre de roupa social impecável postado ao lado da porta de entrada, dizia a cada parada: “um passinho no corredor, por favor,” como forma de tentar arranjar espaço para que outras pessoas pudessem entrar no coletivo. A estrada até Cambé era de pista simples, sem duplicação e a viagem demorava quase uma hora, parando de ponto em ponto. O ponto final da Viação Garcia em Cambé era na Avenida Brasil, onde hoje existe uma padaria. Era um escritório de venda de passagens, ao lado de um bar e quase nenhum conforto havia para os usuários. Os ônibus paravam na rua mesmo, não havia plataformas. Nosso destino era a Rua Estados Unidos esquina com a então Rua Peru, onde a minha infância encontrava o colo dos avós e o mimo dos tios.
Eram tempos difíceis, de construção das muitas cidades da região. As pessoas sofriam, mas mantinham acesa dentro do peito a chama da esperança de construir algo melhor para seus filhos. E elas conseguiram. Muito, ou quase tudo que temos hoje, inclusive as melhorias no transporte coletivo, se comparado àquele tempo, se deve ao trabalho pioneiro de toda uma geração de desbravadores e apaixonados pelo norte do Paraná, como é caso dos fundadores da Viação Garcia.
Na foto, um ônibus ano 1967 da Viação Garcia. Foto do site da empresa (www.viacaogarcia.com).

Um comentário:

  1. Você não é mais novo que eu. Penso que nesta época, o ponto final da Garcia ainda não estava na Av. Brasil e sim na Rua Pará perto do antigo Hospital São Lucas. Um abraço. João (que leu O Homem que Chora).

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