Crônicas Desnecessárias




A minha bicicleta verde

Todo garoto sonha com uma bicicleta. Ou sonhava, quando ganhar uma delas era quase impossível. No tempo em que não havia vídeo-games, celulares, computadores, e outros “brinquedinhos” sofisticados, ter uma bicicleta era a aspiração de quase todo garoto de dez anos.
Durante um longo ano sonhei com a minha bicicleta, e sabia que a ganharia, embora também soubesse que meu pai faria um enorme sacrifício para comprá-la.
Na noite de Natal de 72 (ou 73?) meu pai chegou à sala empurrando minha Caloi dobrável, verde, com freios de mão.
Ainda posso sentir o cheiro dos pneus novos e ainda com rebarbas de borracha.
Eu ainda não sabia andar de bicicleta e meu pai disse que me ensinaria no dia seguinte. No meio da noite levei-a para o meu quarto, empurrando. Coloquei-a ao lado da cama e passei a noite toda olhando para ela. Tinha raios niquelados, uma capa de corrente com uma asa estilizada e o número 150, alusivo ao sesquicentenário da Independência da República.
O pára-lama era branco com listras vermelhas, e no alto do dianteiro havia uma sirene redonda, vermelha e branca.
O guidão era igualmente niquelado e os freios de mão tinham cabos encapados também com as cores vermelho e branco.
Durante muito tempo, anos a fio, andei em minha bicicleta verde e ainda me lembro do seu número de série, estampado sobre o cubo do pedal.
Eu já tinha consciência de que pertencia a um grupo de felizardos. A maior parte dos garotos que eu conhecia não tinha uma bicicleta nova e seus pais nem poderiam comprar uma.
Hoje vejo a mesma divisão nas ruas das cidades. De um lado os poucos que têm muito e nos guetos os muitos que nada têm.
A diferença que naquele tempo, mesmo os que tinham um pouco a mais sabiam valorizar o que possuíam. Meu pai nunca foi rico, mas era bem empregado e crescemos nos chamando de “classe média”.
Nos dias atuais vejo jovens e crianças com uma autêntica “febre de consumo”. A cada nova semana há um objeto, um enfeite, uma roupa, ou um artigo qualquer para ser comprado, adquirido, exibido. As indústrias, ávidas de lucro, se esmeram em lançar novidades a cada dia. E são tantas que não há tempo sequer de curtir a posse um produto, logo há outro a ser cobiçado. A velocidade do consumo destrói até o prazer de sonhar. Não temos mais tempo de esperar ou ficar ansiosos. A satisfação tem que ser imediata e o seu efeito é tão fugaz que fico imaginando se vale a pena viver assim.
Claro que estou exagerando. Mas será que nossas crianças e jovens estão aprendendo algo com essa nossa “sociedade de consumo?” Será que um dia aprenderão a dar valor nas conquistas, nos sonhos realizados, nos presentes ganhos na noite de natal ou no aniversário?
Temos de um lado crianças mimadas que tudo querem e conseguem, sem valorizar quase nada. De outro, crianças abandonadas pela vida e pela sociedade, cujos sonhos só se viabilizam a margem da lei. São aqueles que na exclusão, às vezes se armam e buscam pela força o que desejam. É a desigualdade social latente, demonstrando de forma prática que os ideais de fraternidade ainda têm um curso longo a percorrer.
Por outro lado será que os que têm muito são felizes? Quem não pode valorizar uma conquista, que não sabe o quanto custa o dinheiro ou o que pode ser comprado por ele, saberá valorizar a própria vida?
Estes são extremos indesejados. Precisamos resgatar a valorização de cada momento da vida, os seus ícones e as conquistas de cada idade. Temos também que permitir que todos tenham oportunidades de realizar seus sonhos, sem exclusões.
Talvez assim daqui a algum tempo um desses meninos de hoje venha para o teclado (ou algo que o substitua) e escreva uma crônica sobre o seu “computador”, ou seu “celular”, ou ainda sobre sua “jog”. Cada geração tem seus ícones e sua memória. A minha ainda lembra-se de como era bom brincar com bicicletas pelas ruas tranqüilas da cidade.
© Agosto de 2004 Luiz Cesar Lazari





Um cão chamado Simpático 

No Novo Dicionário do Aurélio, simpatia significa, entre outros, “sentimento agradável e caloroso que alguém desperta em relação a outrem”. 
É comum atribuirmos a uma pessoa a qualidade de simpático, se ela espontaneamente é agradável, está sempre nos sorrindo, de bem com o mundo não é? 
Na verdade, a simpatia é algo que nos cativa, nos agrada. 
Na rua onde moro, há um cachorro de rua, que na verdade estava abrigado em uma das casas vizinhas. 
Ele é um legítimo exemplar de vira-latas, mas tem um porte que “remotamente” lembra um basset. Na verdade é um cão baixo, comprido, com orelhas meio-caídas e um rabo enorme. Sua cor é de um tom de bege, puxado para o whisky, e tem um grande focinho e olhos expressivos. 
Mas, seria apenas mais um cachorro de rua, não fosse o seu comportamento. 
Desde o primeiro dia que o vi, ele vem me saudar, quando chego com o carro, quando saio, ou quando estamos próximos ao portão. 
Como um velho conhecido, ele se aproxima, sempre abanando o rabo, e se deixarmos, lambe as mãos, sobe as patas nas nossas pernas e faz todas as gentilezas típicas de um cachorro. 
Por essa natureza bonachona e alegre, resolvi chamá-lo de Simpático. 
Simpático mora em uma casa que não tem muros ou cerca, e ele vive livremente entre o quintal e a rua, não conhecendo limites, a não ser o dos muros e grades de outras casas. 
Simpático tornou-se popular em nossa rua, onde todos os moradores o conhecem. 
Tudo corria normal na vizinhança, até que a família da casa onde o Simpático mora, resolveu reformar o imóvel, e mudou-se temporariamente. 
Simpático ficou na casa, sozinho. Talvez a família não tivesse como leva-lo, e desconheço se recomendou a alguém que cuidasse dele. 
Mas a verdade é que Simpático ficou só em uma construção, abandonado à sua própria sorte. 
O interessante é que ele não abandonou o seu lugar, o seu território. Como um bom cão de guarda, continuou cuidando da casa. Poderia sair e ir embora, procurar comida e água e não voltar. Mas a fidelidade canina o fez ficar, mesmo sem comida e água. 
Com o passar dos dias, a vizinhança começou a cuidar do Simpático, que apesar da fome, não fica agressivo. Fica cada vez mais carinhoso. Cada um que chega ou sai de casa, Simpático vem e faz um agrado. Mas é cuidadoso. Basta um “passa” e ele sai de lado, mancando, sem latir ou insistir. 
Se por outro lado, damos “conversa” para ele, Simpático toma conta do pedaço e nos acompanha até onde deixamos. 
Há algum tempo eu tinha guardado umas amostras grátis de ração, que a pequena terrier brasileira de nossa casa, esnobemente, não gostou. 
Quando também percebi que Simpático estava sem comida, passei a lhe dar um pouco dessa ração diariamente, com um pequeno pote de água. Imediatamente o cachorro tornou-se mais amigo, um tanto leal e até atrevido. Só não vem morar em casa, por que o portão está sempre fechado. 
Em cada refeição, Simpático devora tudo o que lhe oferecemos, seja ração, seja pão puro ou até umas sobras do prato de minha cachorrinha. 
Em sua inteligência canina, acostumada com as dificuldades diárias das ruas do Brasil, Simpático sabe que barriga que ronca de fome não escolhe cardápio. 
A situação do Simpático me fez refletir. Quantas vezes não nos apercebemos que realizamos pequenos e grandes abandonos? 
Um amigo que insistentemente nos convida para tomar uma cervejinha, uma amiga que nos procura para desabafar os problemas, um colega de trabalho que vê em nós alguém para lhe orientar. Ou até crianças, famílias e cães famintos perdidos pelas ruas de nossas cidades. 
O ritmo moderno de vida nos empurra para longe dessas situações, que talvez signifiquem mais problemas a resolver. 
Não queremos ser responsáveis por mais um cão, mais uma criança, ou por aconselhar um amigo. 
Isto me faz recordar Antoine de Saint-Exupery, que em seu Pequeno Príncipe diz “Tu te tornas eternamente responsável por quem cativas.” 
E é essa responsabilidade que instintivamente queremos manter longe de nós. Mas será que uma relação deve ser vista apenas sob a ótica da responsabilidade? 
E como fica o prazer em poder partilhar um pensamento, um momento, uma situação? Ou não será gratificante o sentimento de sermos úteis a alguém, que naquele momento só pode contar conosco? 
Talvez tenhamos que prestar mais atenção aos pequenos fatos diários, aos pequenos pedidos de comida, de atenção, de afeto que nos chegam. E quase sempre, sem percebermos, mecanicamente os negamos. 
Mas o Simpático me fez pensar também sobre outra realidade. Que mesmo no abandono, na pobreza absoluta, no momento de fome latente e insolúvel, a vida continua a ter seu lado bom e até, paradoxalmente, alegre. Continua sendo vida. 
Mesmo quando está com fome, Simpático não abandona o seu quintal, e nem se torna agressivo ou “pidão”. Vem até nós, com simpatia e alegria, lambe-nos as mãos, fazendo a maior festa. Não sei se em seu pequeno cérebro conta mais a atenção que lhe dedicamos, ou a ração que uma vez ao dia lhe entregamos. 
Ele é sempre igual. Seja na hora da fome, seja no momento da “siesta”, é sempre um amigo leal e dedicado. 
O Simpático poderia zangar-se quando não lhe levo ração. Poderia ser mais amistoso e alegre quando lhe dou comida. Mas, não. Ao que parece, ele quer ser parte de nossa família, não apenas pela comida, mas pelo envolvimento. O Simpático não busca só o conforto ou a alimentação certa, busca amigos. 
Também nós, às vezes nos fechamos com pesados escudos contra pessoas que se aproximam de nós. Sempre imaginamos qual será o interesse daquele que nos aborda. Muitas vezes fazemos um mau juízo de quem quer nos conhecer. E talvez, como o Simpático, eles queiram apenas amigos. 
Após todas essas reflexões caninas, concluo que este é um lado rico da vida, que não podemos declinar, o do aprendizado. É simplesmente maravilhoso poder aprender a cada dia, coisas que julgávamos saber desde crianças. É sensacional podermos refinar nossos conhecimentos a partir de coisas simples, banais até. 
Viver é estar em constante evolução, aprendendo e exercitando os novos conhecimentos. 
Viver é ter a humildade de reaprender algumas verdades da vida com um cachorro de rua, com uma criança, com uma pessoa humilde, que com certeza, não têm a pretensão de ensinar nada a ninguém. 
Mas agora vou pedir a sua licença, e terminar essa crônica. A ração de casa acabou, e o Simpático está faminto no portão. Tenho que ir ao mercado mais próximo e comprar um pouco de ração barata para o meu amigo.


©2002 – LUIZ CESAR LAZARI  







Green Leaves of Summer

(Folhas verdes de verão)

Tradução livre da letra da música do grupo The Brothers Four, 
sucesso do início dos anos 60. 

“Um tempo de colher, tempo de semear 

As folhas verdes de verão estão me chamando para casa 
Foi bom ser jovem na época da abundância 
Quando os peixes pularam tão alto como o céu. 
Um tempo só para plantar, um tempo só para arar 
Um tempo para cortejar uma moça de sua própria cidade
Foi  tão bom ser jovem, estar perto da Terra 
E estar ao lado de sua esposa, no momento do nascimento. 
Um tempo de colher, tempo de semear 
Um tempo só para viver, um lugar para morrer. 
Foi tão bom ser jovem, estar perto da Terra 
Agora as folhas verdes de verão estão me chamando para casa 
Foi tão bom ser jovem e estar perto da terra, 
Agora as folhas verdes de verão estão chamando para casa”. 





Tive a honra de conhecer o Murilo Ponce



“Amigo é coisa para se guardar
Debaixo de 7 chaves,
Dentro do coração,
assim falava a canção que na América ouvi,
mas quem cantava chorou ao ver o seu amigo partir...
...Seja o que vier,
venha o que vier
Qualquer dia amigo eu volto pra te encontrar
Qualquer dia amigo, a gente vai se encontrar”.
Trechos de Canção da América (Milton Nascimento e Fernando Brant)


Não preciso escrever mais palavra alguma. A letra de Fernando Brant resume o sentimento de todos pela perda de Murilo Ponce, jovem amigo que aprendi a admirar e querer bem. Mas registro estas poucas palavras para o futuro, para que aqueles que vierem depois de nós, e não puderam ter a honra de conhecer Murilo Rodrigues Ponce, saibam que existiu um jovem de caráter puro, de sorriso imenso e constante, com uma enorme força de vontade e que prezava por fazer as coisas certas.
Conheci Murilo há poucos anos, quando ele começou a namorar minha sobrinha Carol. Sempre discreto e extremamente educado, Murilo não gostava de aparecer, mas sabia cativar. Sempre disposto a ajudar, era figura certa em todas as situações, mesmo nas empreitadas mais loucas. Não tinha tempo ruim para ele que, aliás, nunca reclamava ou dizia que não podia ajudar.
No trabalho também era assim. Determinado, fazia tudo com dedicação. Nos últimos dois anos Murilo assumiu a chefia do posto de identificação da Prefeitura de Cambé. Enfrentou as dificuldades de alguém que não era do quadro de carreira. Teve que conquistar as pessoas de dentro e também o público, o que fez com competência. Foi dedicado e, não poucas vezes, trabalhou além do expediente, durante noites e mesmo aos domingos para colocar o serviço em dia. Nunca, em nenhum momento, reclamou com superiores ou com as pessoas amigas por ter que se dedicar tanto ao trabalho. E também nunca disse a qualquer superior que estava fazendo serões constantes, além do expediente, para não deixar os usuários esperando mais tempo por sua carteira de identidade ou profissional. Murilo era assim: nunca reclamava de ter que trabalhar além do combinado e nem mesmo ficava valorizando seu esforço perante os chefes, como muitos, aliás, fazem corriqueiramente. Resolutivo, ele não parava sua missão a cada obstáculo que encontrava. Procurava alternativas, mas tinha também a humildade de perguntar quais eram os caminhos a serem seguidos, caso não conseguisse encontrar uma saída para algum problema.
Carinhoso, sempre demonstrava afeto e carinho com as crianças e respeito com os adultos mais velhos. Murilo exercitou em vida muitas de suas qualidades. Era um rapaz humilde, educado, respeitoso, carinhoso, um amigo verdadeiro que não dizia mentiras ou ficava incitando desavenças. Nunca, em todo tempo que o conheci, vi Murilo dizer palavra rude sobre alguém ou ficar desqualificando outra pessoa. Ao mesmo tempo, era solidário e se aliava com os amigos em todas as nossas causas, mesmo as que não lhe diziam respeito diretamente. Murilo honrava suas amizades ao extremo e estava sempre ao lado dos amigos, em todas as ocasiões, mesmo as mais difíceis.
Claro que não tenho a pretensão de resumir a vida de um grande jovem em poucas linhas. Não seria justo com alguém que fez tantos amigos e semeou tanta alegria durante seus 22 anos. Talvez eu nem seja a pessoa correta para falar sobre ele, já que o conheci tardiamente e não convivi com ele tanto quanto outras pessoas. Mas, testemunho o que vi, para que, em uma sociedade como a nossa, onde são valorizados mais os resultados que as intenções, onde o dinheiro vale mais que o caráter, onde os jovens aprendem muito cedo a esquecer os bons ensinamentos e a considerar muito rápido que, para obter sucesso e dinheiro, vale tudo, mesmo ser desleal, antiético, incorreto e desonesto. Que mesmo nos dias atuais, onde muita gente valoriza mais seus carros, motos e sucesso do que as relações com outras pessoas, houve um jovem que soube ser homem de verdade. Murilo Rodrigues Ponce foi um homem de verdade e seus amigos testemunham isto. Para mim, foi uma honra poder conhecê-lo e um privilégio conviver com ele. Obrigado Murilo pela amizade. Siga agora o seu caminho, fazendo no andar de cima, o que você sempre fez aqui na terra: semear a alegria e o bem.
Cambé, 04 de janeiro de 2011.




O fim do ano chegou


Quando olho para o calendário e percebo mais uma vez que, em breve ele estará no lixo, assim como parte dos dias marcados por sua tinta, um misto de esperança, angústia, alegria e ansiedade toma conta da mente: mais um ano está acabando. Com ele acabam muitas de minhas resoluções, feitas nas suas primeiras horas, há cerca de um ano. Foram vencidas pelo tempo, pelo costume, pela inércia. Algumas destas resoluções eram natimortas, eu bem sei. Outras formuladas como fruto de intenso e sincero esforço em melhorar. Neste último caso, algumas como o calendário, estão prometidas ao lixo.
O ano foi perdido, então, penso de imediato. Também não. Muito do que aconteceu foi maravilhoso, foi abençoado. Aliás, cada dia vivido e que agora é página virada no calendário foi uma benção divina. Em cada dia do ano de 2010 aprendemos um pouco mais. Em muitos deles, nos realizamos. Em outra parcela, aprendemos que ainda não é possível fazer tudo o que temos vontade. Em outros, lambemos as feridas da adversidade e recompomos nossas forças para continuar nossa caminhada.
De qualquer forma, foram dias abençoados, maravilhosos e, sobretudo, instrutivos. Mesmo cada momento difícil foi uma escola de vida. Saímos das horas difíceis com mais ânimo em realizar nossos objetivos e aprendemos a cada instante que, afinal de contas, somos apenas partículas de poeira com uma pitada de consciência.
É nisto que reside, em minha opinião, uma das faces mais belas da humanidade: somos inexoravelmente frágeis, passageiros, desimportantes, mas, ao mesmo tempo, temos uma capacidade de criação e realização que transcende nossa galáxia. Nossa civilização pode ser extinta por um evento cataclísmico a qualquer tempo, mas a beleza do legado da raça humana é imortal.
Por isso, talvez, que digam que temos dentro de nós, (e dentro de cada um de nós, mesmo dos mais simples, frágeis e pouco instruídos), a grandiosidade de um deus e a fragilidade de uma pequena flor. Podemos ser esmagados com facilidade, e, ao mesmo tempo, criar e construir impérios magníficos.
Penso que uma boa dica de sabedoria seja aprendermos cada vez mais com nossas fraquezas e com nossas virtudes. Temos que aceitar nossa realidade transitória, nossa pouca importância perante o conjunto da obra da raça humana, ao mesmo tempo em que nos sentimos exemplares únicos, dotados de capacidades e habilidades para executar uma missão especial, imprescindível e intransferível, vital para a sobrevivência da raça.
Que nos próximos dias, marcados por um novo ano no calendário, esta seja uma boa resolução: aprender que somos apenas homens e mulheres, imbuídos de qualidades e portadores de fragilidades. Gente que pensa, age, ri, constrói, e, quase que, ao mesmo tempo, destrói, se omite, chora e tem rompantes de irracionalidade. Somos seres dotados de inteligência, de capacidade, e, de emoções que marcam fortemente nosso caráter.
Somos apenas gente buscando viver da melhor forma, com um pouco de conforto, com facilidades e dignidade. Gente que quer construir uma história boa e bela o suficiente para ser vivida com alegria e contada para nossos filhos como um legado.
Que a nossa principal resolução de ano novo seja esta: viver em paz, em comunidade, com harmonia, dignidade, alegria, buscando realizações e, como pessoas de bem, priorizando o interesse comum. Que sejamos homens e mulheres vivendo da melhor forma a vida que nos foi legada, sem violência de uns contra outros, sem violentar nossa consciência ou nossos credos, e, sobretudo, sem deixar marcas pelas quais nos envergonharemos no futuro.
Que o ano novo seja realmente novo.


Felicidades.


Cambé, 28 de dezembro de 2010.








"Um Passinho no Corredor, por favor"

No momento em que se consolida a venda da Viação Garcia para a Luft Logística de São Paulo, é inevitável lembrar-se de momentos de minha infância, passada até os sete anos no bairro da Cervejaria, em Londrina. Naquela época, o bairro abrigava a fábrica da Cervejaria Caracu, que tinha sido criada como Cervejaria e Maltaria Londrina e que, a exemplo do que acontece hoje, também foi vendida para uma empresa também de São Paulo, a Cervejaria Skol.

O bairro era muito longe do centro de Londrina e para ir "à cidade", como se dizia, usávamos os ônibus amarelos e vermelhos da VUL - Viação Urbana Londrinense, que passavam de hora em hora e sempre bem lotados. Eram ônibus com a corroceria arredondada, menores e bem diferente dos que vemos hoje circulando por toda a região. O 'ponto final' era no bosque e dali íamos ao comércio da época (me lembro particularmente do letreiro em neon das Casas Fuganti, na fachada do prédio onde hoje é o HSBC), e depois, de mãos dadas com meu pai e minha mãe, até à Galeria Marquezine, no térreo do Edifício Tokio, na Rua Sergipe. Meu tio e padrinho Paulo Marquezine era dono da banca que vendia também discos e livros. Invariavelmente ele me dava de presente um fascículo semanal da coleção Os Bichos, da editora Abril, que tenho guardados até hoje. Foi também tio Paulo que me presenteou minha primeira cachorra de estimação, a Preta, mas isto já é outra história...
Subíamos então até o oitavo ou nono andar do prédio, onde morava toda a família do tio Paulo, que na verdade era casado com Catarina, irmã mais velha de meu pai e que o criou desde o primeiro dia de vida, e que, por isso, ele a chamava de mãe. Tia Catarina oferecia doces, biscoitos e insistia que almoçássemos ou jantássemos, conforme a ocasião. A mesa da cozinha era supermoderna para a época: de fórmica vermelha, como as cadeiras e o apartamento reluzia limpeza e organização, administrado com esmero por minha tia, sempre muito severa.
Visitados os tios (que para mim, fizeram o papel de avós paternos), íamos até a rodoviária de Londrina, que funcionava na Rua Sergipe, onde hoje está o Museu de Arte da cidade. Sempre gostei daquele prédio, que acredito ser um dos mais bonitos do país. Descia a rampa sempre agarrado com os pais, para não se perder em meio à multidão que lotava invariavelmente a rodoviária, e nos posicionávamos em uma das plataformas para esperar o ônibus da Viação Garcia que nos levaria à Cambé, na casa de meus avós maternos. Os velhos ônibus Scania da Garcia encostavam e uma multidão saía pela única porta dianteira (eram ônibus de viagem rodoviária e não coletivos urbanos, como acontece hoje). Outra leva de gente entrava e se acomodava nos bancos altos de corvin esverdeado. Eu, como toda criança, gostava de estar ao lado da janela, que tinha cortinas verdes ou azuis. As pessoas se acotovelavam no corredor estreito, e o coletivo ia parando, de ponto em ponto apanhando mais passageiros. O cobrador, sempre de roupa social impecável postado ao lado da porta de entrada, dizia a cada parada: “um passinho no corredor, por favor,” como forma de tentar arranjar espaço para que outras pessoas pudessem entrar no coletivo. A estrada até Cambé era de pista simples, sem duplicação e a viagem demorava quase uma hora, parando de ponto em ponto. O ponto final da Viação Garcia em Cambé era na Avenida Brasil, onde hoje existe uma padaria. Era um escritório de venda de passagens, ao lado de um bar e quase nenhum conforto havia para os usuários. Os ônibus paravam na rua mesmo, não havia plataformas. Nosso destino era a Rua Estados Unidos esquina com a então Rua Peru, onde a minha infância encontrava o colo dos avós e o mimo dos tios.
Eram tempos difíceis, de construção das muitas cidades da região. As pessoas sofriam, mas mantinham acesa dentro do peito a chama da esperança de construir algo melhor para seus filhos. E elas conseguiram. Muito, ou quase tudo que temos hoje, inclusive as melhorias no transporte coletivo, se comparado àquele tempo, se deve ao trabalho pioneiro de toda uma geração de desbravadores e apaixonados pelo norte do Paraná, como é caso dos fundadores da Viação Garcia.


Homens, Canalhas e Covardes

Meu pai dizia que existem três tipos de homens: os homens de verdade, os canalhas e os covardes.

Certamente há canalhas um tanto covardes e covardes bem canalhas, mas homens de verdade, ou simplesmente homens, devem ser diferentes dos outros dois tipos.
Há muitas coisas que diferenciam os homens dos canalhas e dos covardes. Entre elas a capacidade dos homens de verdade em viver sua vida respeitando o próximo, a lei e a moral de sua época. Homens de verdade constroem uma sociedade melhor e se empenham em lutas que buscam o bem comum.
Os canalhas usam todas as oportunidades que tem em benefício próprio, mesmo que isso leve prejuízo para a comunidade.
Já os covardes se consolam com as sobras dos banquetes dos canalhas. Não têm coragem de ser homens de verdade e tampouco de serem canalhas. São vermes mal-resolvidos que se escondem atrás das sombras dos canalhas, os invejando o tempo todo.
Na comunicação não é diferente. Há veículos de comunicação e profissionais sérios, há os canalhas e os covardes.
Os primeiros expõe fatos, com coragem e determinação, respeitando a verdade. Informam a sociedade do que acontece e levam opiniões balizadas no sentido de discutir os fatos e suas consequências para a comunidade.
Os canalhas da comunicação são aqueles que usam os meios que dispõe para explorar fragilidades e chantagear pessoas no sentido de receber benesses dos poderes públicos ou de pessoas privadas. Os canalhas mostram dados da vida privada de cada pessoa, buscando atingi-las e extorqui-las.
E os covardes? São aqueles que possuem os meios de comunicação mas não têm coragem de agir, e, no exercício de sua covardia contratam canalhas para fazerem o serviço sujo que pretendem. Canalhas e covardes fazem uma simbiose perfeita e nociva na comunicação. Seu alvo é a vida particular, principalmente de pessoas públicas.
Veículos e profissionais sérios trabalham com os fatos e a verdade, e quando tecem críticas, elas são feitas sobre os atos públicos de pessoas públicas e são, sobretudo, uma forma de cobrar uma melhor postura de homens públicos e buscar o aperfeiçoamento das instituições.
Já os veículos de comunicação e profissionais canalhas e covardes usam fatos mentirosos, fabricados, e expõe a vida privada de quem não tem nada a esconder na vida pública. A mentira e a chantagem são suas armas prediletas.
De nossa parte, sem falsa modéstia e tampouco querendo soar arrogante, nos colocamos no imenso grupo de pessoas e veículos de comunicação sérios, que acreditam na verdade e no bem comum.
Nossa luta por uma sociedade melhor vai continuar a despeito do ranger de dentes e das vociferações caluniosas de canalhas, covardes e bandidos quadrilheiros de hoje e de ontem.
A nossa história não tem preço e pode ser contada abertamente para todos.
Será que os canalhas e os covardes conseguem contar as suas histórias abertamente?
Um abraço.
Cambé, 15 de Maio de 2010.

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